Faz de conta

Esse ano foi um ano estranho. Eu senti uma imensa apatia por tudo e por todos. Acho que meu único foco foi trabalhar. De resto, nada foi importante ou legal. Até mesmo os happy hours só foram legais porque era o pessoal do trabalho.

Mas eu conheci uma estagiária do meu trabalho, e houve muita coisa rolando entre nós. No melhor sentido da palavra. Antes que alguém comece a me julgar, quero dizer que eu não ultrapassei a linha do moralmente correto. Não que eu não pudesse, afinal, ela estava estagiando num setor totalmente diferente do meu. Mas, afinal de contas, havia uma diferença enorme de idade entre nós e eu preferi não me permitir ser tentado. Apesar de ser estagiária, ela é uma mulher. Uma mulher linda, inteligente e madura. Mesmo sendo estagiária.

No setor onde ela faz o estágio, eu arrisco dizer que ela é mais madura do que todos os outros. Mesmo que ela seja somente uma estagiária. Na verdade, ela acabou não aguentando estagiar, porque no final das contas ela tinha mais conhecimento e maturidade do que os seus supervisores.

Mas… a história não é sobre trabalho. E eu tenho que dizer, portanto, que nós fizemos uma boa amizade. Nos identificamos à primeira vista. Fomos apresentados por intermédio de um colega em comum, num jantar em um restaurante árabe. E eu percebi que ela não era apenas uma garota que gostava de esfirras. Ela conhecia a culinária árabe. Mais tarde, eu percebi que ela conhecia muito mais que isso. Embora ela fosse de uma família modesta, ela conhecia muito da vida.

Mas… estou divagando de novo. Depois de alguns meses de amizade, eu conheci a família dela, e seus amigos também. Algum tempo depois eu percebi que ela estava dando em cima de mim. Ela estava apaixonada. E eu, felizmente, não fiz merda. Me mantive íntegro e não fiquei com ela (embora ela fosse desejável e eu fantasiasse um pouco com ela). Depois as melhores amigas dela deram em cima de mim. Então eu percebi que todas elas (minha amiga inclusive) não estavam ME querendo (e eu nem sou essas coisas todas). Elas estavam apaixonadas pelo bipolar que existe dentro de mim. O sedutor, o Richard Gere (quem está visitando pela primeira vez, veja o filme Mr. Jones, em que esse ator é bipolar). Ela deu em cima de mim igual o diabo dá em cima do fiel. E eu fugi, igual o diabo foge da cruz. Todos somos maus, não há um anjo sequer, entre nós.

Depois de meses, acabei descobrindo que o pai dela era bipolar (recém diagnosticado). E no fim das contas, ela se apaixonou por mim, porque via em mim o pai dela. Só que diferente. Ela me via maduro, equilibrado, livre. E sem falsa modéstia, eu agia como se fosse equilibrado e normal. Na verdade, aprendi a me esconder dentro de minha casa. Embora eu pareça meio excêntrico, eu acabo passando por normal porque agora aprendi a beber dentro de casa, a me deprimir só nos fins de semana e a viver uma vida bipolar travestida de normalidade.

Enfim… eu vivo num faz de conta.

Mas eu acabei confessando pra ela que eu era bipolar, assim como o pai dela. E por sentir pena no homem, acabei tentando explicá-la que ele não era culpado/culpável por ser bipolar. E ela tentava se reaproximar dele. Mas no final das contas, ela sofreu uma enorme desilusão, sobretudo, porque ele estava num estágio totalmente caótico e desequilibrado. Ele não aceitava o diagnóstico. Ele simplesmente vivia de modo devasso, desorganizado e totalmente livre. E ela cobrava dele alguma maturidade. Ela olhava pra mim, medianamente equilibrado. Ela olhava pra ele, caoticamente perdido. E a comparação era inevitável. E ele certamente perdia pra mim. Seja porque ela ainda estava apaixonada por mim, seja porque ela ainda sentia muito ressentimento dele.

E eu senti pena dele. Porque no final das contas, eu percebi que ela não admitia e não compreendia o que ele passava. Eu mato um leão por dia pra sobreviver. Na verdade, eu mato vários leões por dia pra sobreviver. E quando eu não consigo matar o leão, eu tenho que fugir e me esconder, e torcer pra que o leão procure outra presa. E vez ou outra eu me desequilibro e faço merda. Mas hoje, eu aprendi a esconder a merda debaixo da moita… Porque pior do que fazer merda, é deixar que os outros vejam sua merda… então eu escondo. Eu sofro sozinho. Eu bebo em casa. Eu me deprimo só com minha cama. Eu vou trabalhar deprimido, fingindo que tudo não passa de saudades de minha falecida mãe. Mas no fim das contas, eu apenas torno minha loucura aceitável para a sociedade.

Eu senti pena dele. Porque ela simplesmente fazia de conta que me compreendia. Ela me aceitou apenas porque eu estava normal. Ela não conheceu meu lado sombrio, minha depressão. Ela ainda hoje acha que ele tem um desvio de caráter. Ela não acredita que o pai pode ser dominado por um desequilíbrio químico no cérebro. Ela ainda acha que ele faz merda porque é um cara do mal. E que se eu consigo me manter sóbrio, ela acha que ele também deveria conseguir.

No fim das contas, eu faço de conta que sou normal, mas sou bipolar.

Ela faz de conta que entendeu o que é transtorno bipolar, mas na verdade ela não sabe o que é.

Ele, contudo, é o único que vive no mundo real. Ele vive transtornado por seu transtorno. Sim, fui redundante pra ser mais enfático. Ele é o único autêntico. Ele é o único que experimenta a realidade (embora ele talvez nem se dê conta).

No final das contas, eu não sei como alguém pode se apaixonar por mim. E assim eu me boicoto. Ou me saboto. Eu só me envolvo com gente louca (com quem é virtualmente impossível ter um relacionamento duradouro e sadio). Porque eu morro de medo de foder com a vida de uma mulher que seja realmente normal.

E no final, eu tento fazer de conta que estou bem sozinho… eu tento…

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1 comment so far

  1. Fernanda Puga de Moraes on

    Duas perguntas pairaram na minha cabeça (isso é bom, porque significa que achei todo o resto normal), 1- que restaurante árabe é esse? (to com muita vontade de visitar um, e 2- Como você consegue trabalhar assim?


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