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Sonhos

Hoje tenho quase 40. Sou uma pessoa muito melhor do que fui no passado. E mais relizada, também. Tenho amigos, família… gente próxima que se importa comigo, não porque tem pena de mim ou porque isso é “correto”, mas apenas porque elas gostam de mim. Hoje vivo uma vida completa, cheia de realizações. E tenho uma pessoa fabulosa ao meu lado. Hoje eu não sou mais pego pelas compulsões. Diria que não faço nada por fuga… e não tenho mais medo de morrer sozinho. Aliás, hoje eu nem penso mais na morte. Hoje sei valorizar as pessoas certas, sei me importar mais comigo menos e menos com a opinião de pessoas – coisa que sempre me foi nociva. Aprendi a viver com pessoas que antes eu considerava superficiais e tolas, gente mediocre, e vejo que, na verdade, elas são gente simples… assim como eu sou hoje. Hoje eu assisto programas de auditório e realitys shows e vejo muita graça em tudo.  E bem… no fundo, sou uma pessoa realizada. Conformada… sonhos…

Hoje, na verdade, sou o mesmo de sempre. Um garoto com quase 30, que na maioria do tempo tenta se convencer de que ainda tenho alguma auto-estima, mas que quando chega na “balada”, percebe que o mais importante não é ter auto-estima, mas ser bonito. Um rapaz que vai pra balada e toma uns pilequinhos de vez em quando, mas sabe que nada disso vai resolver: é apenas fuga da realidade. Uma pessoa que sempre crê que “dias melhores virão” e que, na verdade, vê coisas melhores acontecendo, mas no fundo, continua infeliz. Um cara que adora mulheres, mas que as evita porque elas vão querer sexo… e isso, certamente, será trágico. Um cara que já pensou em sair do armário, mas sabe que o mundo gay é pior ainda que o mundo hétero e… fato: eles também vão querer sexo. Sou um cara com problemas pra me relacionar. Prefiro investir em quem está longe – isso por total inabilidade de lidar com as pessoas que estão por perto. Sim, eu sou uma pessoa amarga e triste, solitária – e isso foi tudo que eu sempre combati.

Voltei a tomar os remédios (sim, eu consegui um jeito de recebê-los aqui nesse fim de mundo) e percebi que minha inquietação não melhora – embora eu consiga ao menos controlar meu comportamento social.

“Talvez eu esteja destinado à grandes coisas”. E isso, eu tenho consciência, é a maior farsa bipolar de todos os tempos… “sou diferente, sou incompreendido, sou superior”. Meus discursos contra a mediocridade são apenas mais um modo de tentar aparecer. Esse blog, é, na verdade, apenas mais um alimento pro meu ego. Mas é como minhas amizades: eu só quero quando eu estou disposto… quando não, prefiro ficar de lado.

A solidão, por sua vez, não aceita as coisas assim… ela vem e pronto. E eu começo a achar que tudo é apenas uma auto-comiseração, mas depois percebo que nem eu me suporto. Minhas qualidades me precedem, mas meus defeitos me atormentam.

Hoje eu tenho um pouco mais de dinheiro no banco e as pessoas me vêem como se eu fosse um pouco melhor que antes… mas agora eu continuo só. E continuo atraindo problemas que depois não tenho disposição de resolver. Enjoei da internet. Enjoei de música. Enjoei de algumas séries. Enjoei de ir pra “balada”. Enjoei de viajar. Enjoei de mim mesmo.

Verborragia. Vômito?

Não. Tudo engano. Não leve em conta nada do que eu escrevi acima. Isso foi apenas um exercício mental. Uma forma de tentar permanecer em total sanidade. Existem verdades nas entrelinhas, claro. E em algumas linhas também. Mas o melhor é…

Ah. Deixa pra lá.

Mudando de assunto.

Sonhei que eu voava.

Mudando de assunto de novo.

Meu ponto fraco é, de fato, a solidão. Ela, apenas ela, fez com que eu sonhasse com todas as coisas acima mencionadas.  Um psicólogo diria que estou esquizonfrênico. Talvez. Mas tudo não passa de literatura. Falta do que fazer. Falta de sono. Meu ponto mais fraco que a solidão? Não sei. Talvez a sorte. Ou a falta dela.

Agora me esforço para não sonhar de novo. Porque numa época eles foram fuga da realidade. Noutra época eles foram força para seguir em frente. Mas hoje, eles são apenas expectativas distorcidas do futuro. Por isso tento retornar ao passado. Entender melhor sobre o que aconteceu quando eu era indefeso. Destruir a raiz de meus problemas comigo mesmo. Entender como eu deixei as pessoas me fazerem pensar que tudo era culpa minha.

E bem… pensando no passado, eu me esqueço dos sonhos.

E quem não sonha perdeu a capacidade de viver. É isso. Estou me boicotando de novo. Desejo de morte… mas dessa vez entendi. Não aspiro uma morte física… mas uma morte da esperança.

Amanhã sei que acordarei melhor. E a vida vai ser igual a semana passada. Trabalho,  casa, fingimentos sociais, conversas superficiais. E então eu voltarei a sonhar. E me frustrar. E aprender com as frustrações. E crescer. E achar que involui. E ver que quanto mais eu cresço, mas consciência eu tenho das minhas limitações e de que não sei nada. E achar que apesar das coisas terem melhorado eu ainda estou infeliz, porque não encontrei o sentido de tudo. E perceber que na verdade, o sentido é apenas experienciar tudo isso. E perceber que não estou só. E voltar a estaca zero. E depois a dez. E fingir que não sou mais bipolar. E entender que ainda sou, realmente. E achar sentido em tudo, outra vez. Me apaixonar. Me iludir. Quebrar a cara e aprender. E ser feliz com coisas pequenas. E com outras grandes. E esquecer a felicidade e ficar infeliz de novo. E comer demais. E fazer dieta. E desejar ir em frente. Ou voltar atrás. E bem… seguirei sonhando…

Sonhando…

Ou pensando que tudo isso é o sonho… e quando morrer, acordarei pra outra dimensão e terei a certeza de que… tudo não passou, realmente, de um sonho.

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