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Dor

Semana passada eu estava me preparando pra ir com uma amiga a uma feira, quando cai e torci o pé. Muitas pessoas viram, mas ninguém veio socorrer. E eu, levantei como se nada tivesse acontecido, apesar de sentir um desconforto no pé. Como minha amiga havia feito impossíveis para irmos até a feira, eu sequer cogitei a possibilidade de desmarcar. Mas também fiquei desconfortável dela ter que me acompanhar mancando. Quando ela chegou falei pra ela, e ela concordou em irmos, mas disse que não haveria problemas se eu desistisse.

Fui e passei boa parte da tarde andando. Não sem muita dificuldade, e em alguns momentos eu procurava um desses bancos de praça pra sentar. Mas a dor, apesar de fraca, era constante e dependendo do movimento que eu fazia, ela se intensificava como uma rápida facada.

Na volta, passei na farmácia e comprei um anti-inflamatório e uma pomada. Em casa eu passei a pomada e enfaixei. E nada mais…  De noite, porém, um amigo fisioterapeuta foi lá em casa e pediu pra ver. Só então eu me dei conta que o lugar estava roxo, quase preto. Ele insistiu e me levou a um hospital. Fomos de carro, e entei andando no hospital.

Quando o ortopedista pode nos atender, após uma imensa fila, entramos meu amigo e eu, e eles começaram um papo de médico… Ele me indagou sobre o horário da torção e sobre o que eu havia feito depois e eu contei toda a história. Eu sentei na maca e ouvia um dando bronca mais que o outro. Quando finalmente o médico pediu para eu colocar o pé em cima da maca, e começou a examinar, eu achei que iria perder o pé, ante a cara de susto que o doutor fez. Ele disse que iria apalpar, mas que se eu sentisse dor, poderia avisar. Ele apalpou e eu apenas sentia desconforto. Depois fiz um Raio-X, e com os resultados ele me perguntou se eu não sentia dor.

Eu disse que uma pequena dorzinha, mas nada demais. Ele me informou que eu havia fraturado um osso no tornozelo, além de romper um ligamento, torcer uma sei lá o que, luxar num sei onde e mais um monte de coisas. Disse que pela localização da fratura e sei lá mais o quê eu não deveria conseguir ficar meia-hora sem ir ao médico, quanto mais andar… Engessou meu pé e disse que dentro de algumas semanas eu devo voltar pra ver se será necessário algum procedimento cirurgico (apesar dele estar achando que isso não será necessário).

Depois do gesso, não senti mais dor alguma (além, é claro, das dores no outro pé, que está aguentando todo o meu peso enquanto o gesso seca completamente; e das dores de cabeça sempre constantes).

Mas percebi com certeza algo que eu já desconfiava. Meu limiar à dor é totalmente desregulado. Tem coisas idiotas que me causam dor imensa… e outras realmente sérias que não me causam mais do que desconforto. Seria um mecanismo de auto-defesa? Ou será que realmente tudo parece ter outro foco…

Sinto como a piadinha… se lugar X tá doendo… dá uma porrada no lugar Y que passa… Ou como o segredo de morder a ponta do dedo ou dar um beliscão pra poder desviar o foco da dor. Talvez seja isso… minha dor dói mais na cabeça do que no corpo.

E enquanto estou proibido de sair do lugar, vou seguindo estudando, assistindo seriados, sentindo dor de cabeça lacinante e nada de dor no pé.

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Divagações e Devaneios

Esse post será uma série de divagações. E devaneios, claro. Se não acompanhar meu raciocínio, não se preocupe. Ele não faz muito sentido nem pra mim. Caos. Serão abertos muitos parênteses. Estou há dias querendo escrever algo assim – e fico mastigando mentalmente… mas na hora de postar, tudo se evapora. Hoje não.

Tudo começou com a insônia. Dias atrás. Ela causa uma bola-de-neve. Eu vou trabalhar cansado, chego em casa e cedo tenho vontade de dormir. Aguento o máximo, mas cochilo logo. De noite, não durmo mais. Ciclo vicioso. E de dia estou pior ainda. Cinco dias assim… Normalmente eu evito ligar o computador, ouvir música ou fazer coisas que me despertem de vez. Fico na cama, tentando adormecer novamente. É impossível. A mente voa à velocidade da luz. Mas é tiro e queda. Faltando uma hora pra ter que levantar, ir para o trabalho, o sono volta. E volta com toda força. E eu durmo a um’orinha mas acordo de ressaca. Preciso de mais que uma hora. Mas o trabalho impede.

Hoje, eu acordei três da manhã e cedi: internet, msn, leituras. E música clássica – que há muito tempo eu havia perdido o gosto. Chegando perto da hora do sono voltar (e de “acordar), resolvi quebrar o ciclo. Ao invés de continuar na cama, resolvi tomar logo um demorado banho. Percebi que há muito eu tenho acordado sempre em cima da hora. Banho rápido, me visto sem sequer ver se a roupa combina (pego a primeira roupa limpa que achar no guarda-roupas) e já chego no serviço em cima da hora, sobretudo quando passo na padaria e peço coisas aleatoriamente. Antes eu gostava de acordar mais cedo, tomar banho demorado, tomar café… Essas coisas se perderam (talvez junto com a qualidade do sono, quando o Transtorno Bipolar do Humor se desencadeou).

No chuveiro, percebi que tenho sete tipos diferentes de sabonete. Detesto repetir sabonete, creme dental e coisas do tipo. Refleti que isso é uma constante em mim: detesto ser óbvio, e sobretudo, repetir costumes. Sempre pego ruas diferentes pra ir aos mesmos lugares. Aliás, o único mesmo lugar que eu vou é o trabalho e minha casa. Evito ir nos mesmos lugares, almoçar no mesmo restaurante… Por um lado sei que isso é bom – e me esforço para evitar rotinas. Por outro lado percebi que essa é uma forma de amenizar a culpa por não conseguir mudar “aquilo que é essencial”.  Eu consigo mudar os móveis de lugar, mas não consigo jogar toda a tralha fora. Eu mudo de restaurante, mas não consigo comer menos. Enfim… essas tentativas de “não se repetir” acabam deixando-me mais confortável quanto a não fazer mudanças substanciais.

Saí do banho disposto a tentar acordar mais cedo e retomar o controle da minha vida, sem ser levado pelos desejos do meu corpo, sobretudo, o de dormir. Lembrei de quanto prazer eu tenho em tomar banhos demorados (o que há muito já não fazia por acordar em cima da hora, ou chegar cansado demais), em passar na padaria e escolher quitandas, de modo tranquilo. Falar com as balconistas, e fazer gracinhas. Ver o dia, contemplar o céu… enfim.

Também pensei no capitalismo do trabalho. Lembrei do Bipolar e da sua constante insatisfação com seus trabalhos. Lembrei que estou no auge da exaustão e bem insatisfeito também. Consegui recapitular. Desde que me entendo por gente (comecei a trabalhar muito cedo), eu sempre tive um desempenho superior aos meus pares. E mais… eu sempre ousei buscar métodos novos pra fazer as coisas de maneira mais efetiva, econômica e divertida. E agora percebi que isso sempre me rendeu problemas. Usar tempo para inovar, para buscar soluções mais adequadas é geralmente visto como perda de tempo. E pior, ser eficiente gera um ciclo-vicioso capitalista. Se hoje você faz em vinte minutos o que normalmente fariam em sessenta, você é reconhecido. Reconhecido com um “parabéns” e com o triplo de trabalho. E se num momento de cansaço, você só conseguir realizar o dobro (e não o triplo), ou realizar o tal triplo no tempo norma (três horas) você é visto como incompetente, como se sua produtividade houvesse se reduzido…

Fui, com o passar do tempo, e de modo totalmente inconsciente, deixando de parecer o “totalmente eficiente” e me tornando o “eficientezinho”. O serviço que levaria uma hora, e que eu poderia tranquilamente fazer em vinte minutos, hoje eu o faço entre 45 e 50… E sempre digo que ele vai levar entre uma hora e uma hora e vinte. Assim, sou um pouco menos cobrado. E isso me dá espaço pra ter minhas recaídas.

As recaídas. Quando tudo parece perder o sentido, e inexplicavelmente eu não consigo fazer um serviço de uma hora nem em dois dias. O que era tesão vira broxação. O que era intensidade e força, vira total fraqueza. Minha inteligência parece ser congelada (e mesmo assim, se eu me forçar, ainda consigo ser mediano). Ontem foi um desses dias. Uma amiga queria falar besteira e se exibir pra mim na webcam. Ficou me enviando links de coisas eróticas. E eu simplesmente não queria nem falar com ela… quanto mais ver putaria digital. Descaso.

Pensei se existe algum lugar onde eu possa simplesmente trabalhar no ritmo desordenado do meu cérebro. Lítio ajuda, mas não resolve. Topiramato é (no meu caso) extremamente útil pra não me deixar ciclando rápido, e não ter viradas. Mas mesmo assim eu tenho as oscilações (acima do normal) e os dois polos bem definidos. Psicoterapia foi útil, por algum tempo, mas só me ensina a perceber o inevitável. Por mais que a predição me ajude a reduzir atitudes potencialmente ofensivas, elas apenas minimizam, e de modo bastante paleativo, as minhas reações. Impotência.

Descrença total em sistemas. Termino a faculdade de leis, e creio cada vez menos nelas. Estudo para passar num exame que me fará um defensor, aquele que busca a justiça… mas cada vez menos acredito que se possa fazer justiça. Sobretudo pelas próprias mãos. Aliás, cada dia que passa penso mais que a justiça é um dom exclusivamente divino. E que buscar qualquer tipo de justiça (auto-justiça, imposição, etc…) me faz apenas me afastar do divino. Espiritualização.

Como eu sei que esse post nunca poderá acabar bem, digo, ter um final que seja coerente com ele (que em momento algum representou, sequer, sombra de coerência)… e como eu poderia deixá-lo aberto por mais quatro horas (que é o tempo aproximado entre o início da escrita e esse parágrafo)… vou encerrar.

Lembro da música que eu sempre gostei, desde o início desse blog:

Me Deixa

Chicas

Composição: Marcelo Yuka

Pode avisar, pode avisar
Invente uma doença que me
Deixe em casa pra sonhar
Pode avisar, pode avisar
Invente uma doença que me
Deixe em casa pra sonhar
Com o novo enredo outro dia de folia
Com o novo enredo outro dia de folia

Eu ia explodir, eu ia explodir
Mas eles não vão ver os meus pedaços por aí
Eu ia explodir, eu ia explodir
Mas eles não vão ver os meus pedaços por aí

ME DEIXA que hoje eu to de
Bobeira
ME DEIXA que hoje eu tô de
Bobeira

Hoje eu desafio o mundo
Sem sair da minha casa
Hoje eu sou um homem mais sincero
E mais justo comigo
Hoje eu desafio o mundo
Sem sair da minha casa
Hoje eu sou um homem mais sincero e
Mais justo comigo

Podem os homens vir que
Não vão me abalar
Os cães farejam o medo,
Logo não vão me encontrar
Não se trata de coragem
Mas meus olhos estão distantes
Me camuflam na paisagem
Dando um tempo,
Pra cantar

ME DEIXA que hoje eu to de
Bobeira, bobeira
ME DEIXA que hoje eu tô de
Bobeira, bobeiraaaaaa