Quebrado por dentro…

Adoro assistir séries. E bem… eu as assisto porque de alguma forma eu me identifico com elas. E serve até como uma forma de terapia: eu assisto, reconheço os personagens, verifico padrões de comportamento com as quais eu me identifico e busco soluções pra os personagens – soluções que na verdade são pra mim. E bem… recentemente a série que tem me causado maior identificação é Grey’s Anatomy, uma série médica.

Me identifico muito com Meredith Grey, uma das personagens principais – e a narradora dos inícios e términos dos episódios. Ela é uma residente de medicina, e filha de um ícone na medicina, Ellis Grey (que ficcionalmente descreveu o Método Grey de Anatomia). No decorrer da série, vemos Meredith conhecendo seu pai, alcóolatra que abandonou o lar, e sua meio-irmã, Lexie. Tem que cuidar de sua mãe, que sofre de Alzhaimer – e que sempre a deixou de lado por causa da medicina, e que por último, cobrou que Meredith fosse “a melhor”. Além disso tem que lidar com “a sombra” da mãe, no hospital; e com o seu chefe, que mais tarde descobre ter sido o motivo da separação de seus pais, o grande amor de sua mãe… e que ele não teve a decência de largar tudo por ela. Conhece um médico mais velho… Derek… e começam a se relacionar, quando percebe que sua vida e seu comportamento são resultado de sua infância: a cobrança de performances, a rejeição da mãe, o abandono do pai, etc…

É uma versão da minha história. Meu pai não era alcóolatra, mas era bruto e não separou de minha mãe, mas vivia mais com a outra família. Minha mãe não era médica, nem criou uma teoria… mas sempre se dedicou mais ao trabalho do que à família (mesmo sob o argumento de sustentar à casa). Eu sempre cresci tendo minhas necessidades emocionais em último plano. E no fim tive que cuidar de minha mãe à despeito de minha própria vida (inclusive desfazendo um noivado). E isso sem contar com a pobreza, os abusos sexuais, a repressão religiosa…

Meredith diz que hoje entende porque seus relacionamentos não costumam dar certo. Porque ela é uma pessoa quebrada por dentro. É como eu cheguei à conclusão que me sinto. Quebrado por dentro. Destruído. Procurando conserto. E talvez nem tudo seja culpa do transtorno bipolar do humor. Nem tudo…

Mas Meredith encontra na terapia e na leitura dos diários de sua mãe uma forma de abstrair essa dor que ela sente. E ajudada por seus amigos e por seu namorado… e até mesmo pelo ex-amante de sua mãe, também seu chefe, ela consegue ir consertando as coisas aos poucos.

E eu… eu vou encontrando cura nos remédios e na terapia. E nos seriados também. Infelizmente não tenho amigos próximos e uma namorada como a personagem de Derek Sheppard pra me acolher. E hoje… hoje eu só queria estar assim, acolhido. Me sentir seguro. Afagado. Importante pra alguém, mas de um jeito tão próximo, tão especial e tão íntimo, que isso fosse suficiente pra suprir tudo. Ok… sei que isso é muito, mas eu tenho o direito de sonhar, non?

Mudando de assunto. Escrevi um rascunho de post, mas como ele ficou meio sem contexto, e como eu queria escrever essa reflexão do “quebrado por dentro”, eu acabei desistindo de reformá-lo. Então vou contar aqui mesmo. Estou mudando de emprego.

Seria uma longa história, mas… eu estava no lugar certo, na hora certa, fazendo o que sei fazer de melhor (e que na ocasião era a coisa certa). E a pessoa certa me viu, e pensou que eu fosse a contratação certa pra se fazer. Em menos de duas semanas o que foi uma coincidência passou a ser um contrato de trabalho. Trabalhar metade do que trabalho hoje (e com horários totalmente flexíveis), pra ganhar o triplo do que ganho (e com possibilidade de ascensão e de fazer trabalhos como freela por fora), numa cidade muito melhor do que a minha (e que fica bem próxima). E fazer exatamente o que gosto e que é aquilo em que sou melhor – coisa que minha empresa anterior não havia enxergado. Vou trabalhar diretamente com o Presidente da nova empresa. Terei uma equipe com pelo menos cinco pessoas… enfim… estou super empolgado. O departamento/cargo é uma espécie de inteligência competitiva, só que em uma área mais especializada.

Mas nessas duas semanas estou cansado prá caralho caramba. É que ainda estou no emprego antigo, mas já comecei a trabalhar para o emprego novo (virtualmente) e ainda alguns projetos do emprego antigo pra finalizar e outros pra repassar à outras pessoas.

E bem… confesso que esse momento de transição me assusta um pouco. Deixar uma zona de conforto, onde apesar d’eu não ser reconhecido financeiramente, eu era considerado o melhor no que fazia…. e ir pra um lugar que pela própria natureza é desafiador por sí só, e aonde você ainda não é conhecido e respeitado como profissional… bem… é de fato um pouco assustador. Mas sei que é um desafio necessário. A única forma de não continuar estagnado.

O mais interessante é que o Vice-Presidente de Administração do meu emprego (o velho) disse que ficou surpreso e chateado com a minha saída. Explico: há meses atrás ele me disse que a empresa estava expandindo um Departamento e que me levaria pra lá, para ser o segundo do departamento. O problema é que já tem muito tempo, e eu não poderia perder essa oportunidade nova. Promessas não pagam minhas contas. E além disso, o atual gestor desse departamento me confessou que ganha menos do que a proposta do novo emprego. Falei na cara do VP de Administração que eu estava aberto à negociar minha saída. Ele mudou de assunto, arrumou um compromisso urgente e foi embora.

Confesso que seria mais confortável pra mim continuar nessa empresa. Até mesmo porque mesmo nesse outro departamento, eu já sou respeitado. Mas… como a empresa não está disposta à me valorizar financeiramente de modo adequado… lamento não poder rescusar uma proposta mais interessante (sim, estou sendo um pouco sarcástico… mas só um pouco, ok?)

Bem… é isso… se eu demorar à postar, não se preocupem, não suicidei. Apenas estou abarrotado de trabalho.

É isso.

4 comentários até agora

  1. lamarques on

    Oi, tudo bem?

    Tenho tbh a quase quatro anos e nesse momento estou passando por uma grave crise, o meu tipo de transtorno é o que varia varias vezes durante o dia, mas me indentifiquei muito com vc, no momento estou afstado do trabalho…quando voltar tenho certeza que eles me mandarão embora…quem quer trabalhar com um Bipolar?
    Estou tentando me adptar, não posso ficar sozinho e meu medico aumentou o numero de medicamentos que eu tomo, mas oq mais me incomoda é a insonia e a falta de concentração…é como vc falou as vezes eu sinto falta do pensamento acelerado das ideias as vezes brilhantes que saem e me sinto dividido, assim como vc…entre tomar os medicamentos e ter uma vida pacata ou jogar tudo pro ar e tentar conviver com a doença…ou então um meio termo como vc falou…isso tudo pq antes eu tocava, compunha musicas, escrevia contos e tanto as musicas quanto os contos eram bastante elogiados….hoje porem não toco nada nem componho a quase um ano e escrever não tenho nem ideia de quando parei….
    Desculpa falar tanto é que como eu disse estou com insonia minha mulher ta deitada do meu lado me vigiando e cochilando e eu estou com uma vontade louca de conversar com pessoas que tenham os mesmos problemas que os meus o pelo menos parecidos. Então eu ouvi falar que tem um msn aqui do blog me diz como entrar e mande-me um e-mail que ai eu falo mais sobre mim e quero te conhecer um pouco mais….
    adorei seu blog estarei sempre aqui, so pra constar sou viciado em series tbm não vou dizer todos que estou acompanhando se não não paro de falar, e acho que ja falei demais….
    ate mais vc ainda vai ouvir mais sobre mim…..

  2. profpardal on

    Oi!
    Tb adoro a anatomia de grey. Não que me identifique com a Meredith, mas gostava de ser como a Cristina. Brilhante no seu trabalho e sem quaisquer sentimentos de dependência sobre os outros.
    Seria tão fácil assim.

    Como vais vivendo a tua vida? Não é fácil, pois n?

  3. Natália on

    Adoru esse seriado tb, aliais adoru outros tantos..nessa fase q me encontro então passo a madruga vendo Tv, tb tive uma infancia humilde, problemas com meus pais (aliais até hj nunca comentei q sou bibolar, eles me acham apenas uma filha meio loiuca e malandra -qdo não quero sair do quarto)tb faço duas faculdades quer dizer tento, pq esse semestre eu fiquei uns dez dias sem querer ver ninguém no meu quarto…mas engraçado lendo seu comentário me senti muito normal…pq existem pessoas como eu.

  4. profpardal on

    Olá!
    Eu tenho transtorno de personalidade borderline.
    Considero-me uma pessoa normal, mas que de vez em quando entro em depressão.
    Tenho um trabalho a nível intelectual. Conduzo. Sou dona de casa, mãe e esposa.

    Ninguém sabe que tenho este distúrbio, apenas a minha família mais chegada.

    Não está a ser fácil viver com este estigma. tenho variações de humor algo frequente, mas felizmente encontrei o que considero ser o melhor psiquiatra português. É professor universitário e tem algum prestígio na classe médica.

    Deu-me a medicação e neste momento estou quase curada.
    Acreditas que deixei de fumar. Imagina um borderline a fazer tal coisa.

    Se quiseres eu dou-te os contactos dele. Já que tens msn, podiamos conversar. Será muito diferente do que conversar com a nossa família que não nos compreende e que pensa que os nossos problemas são fruto do nosso mau feitio.

    Além do mais, tenho feito uma pesquisa (gigantesca) na Internet e encontrei sites fantásticos sobre os varios distúrbios de personalidade.

    Entra em contacto comigo. Gostava de partilhar algumas informações contigo.

    Beijos e pensamento positivo!


Leave a reply