Insônia
Já passou de duas da manhã, e como diria Ed Motta, “não fiz nada até agora, vô sair fora… mais um dia se passou e eu não posso parar, essa é a hora”. E vou ter que “acordar” às 4h, e matar serviço. É que tenho que ir pra uma cidade X, pra de lá ir pra uma cidade Y (bem ao estilo “do contra”). É como querer ir pro Rio (saindo de São Paulo) e ter que passar em Sorocaba ou Campinas…
Bem… mas eu vim mesmo foi postar sobre a insônia. Maldita insônia de um bipolar em tratamento. Antes, quando eu não tomava os veneninhos, minhas insônias podiam durar dias, mas eu sempre tinha excelentes coisas pra fazer. Naquela época eu conseguia fantasiar coisas sinistras, eu conseguia estudar horas à fio, conseguia ficar assistindo seriado de madrugada, e navegar na net era sempre muito interessante.
Não sei se isso é problema dos remédios ou meu, mas o fato é que até mesmo o sono parece chato. Quer dizer, antes o sono era pouco e escasso, mas eu conseguia sonhar (e ocasionalmente até manipular o tema dos sonhos, retomar sonhos anteriores e continuar, essas coisas). E mesmo que eu não sonhasse, o sono naquela época parecia importante: artigo de luxo, mas que quando eu conseguia dormir, ele era realmente revigorante. Até como fuga ele era muito bom. Eu dormia e esquecia dos problemas. Hoje dormir é apenas mais uma burocracia fisiológica, e sobretudo psicológica (porque se eu não dormir, acabo surtando). O sono não é mais revigorante. E se eu dormir uma hora a mais, depois eu não consigo dormir direito, no outro dia.
Aliás, até a insônia hoje é uma bosta. Eu não consigo estudar, porque me falta capacidade de concentração. Também não consigo ler um livro numa sentada ou assistir seriados, porque fico preocupado que o sono pode me fazer falta. E não só isso, mas eu não consigo me concentrar, minha mente perde o foco. A net… bem, a internet deixou de ser o que era há muito tempo. E meu quarto, que sempre foi minha Nárnia particular (ou seria minha Hogwart’s… ou a cidade dos Elfos, as Terras Médias… sei lá, pode escolher…) agora me parece apenas um cubículo apertado, desorganizado e com as paredes precisando renovar a pintura.
E quando eu penso nisso, é inevitável questionar: Que estabilidade é essa? Será se Erasmo de Rotterdam estaria certo em elogiar a loucura, já que possivelmente ela [a loucura] é que dá aos homens toda alegria e gozo que se pode imaginar?
Digo isso, porque a vida hoje se resume à duas alternativas básicas: fazer um tratamento, que será para o resto da vida, complexo, caro, cheio de efeitos colaterais – e viver uma vida “equilibrada”, que por um lado pode ser menos desastrosa e traumática do que seria sem o tratamento, mas que também certamente será menos alegre, intensa e potencialmente grande; OU largar o tratamento de lado e viver uma vida totalmente desequilibrada, onde você pode ser um gênio, ter super habilidades (algumas delas reais, inclusive, como a capacidade de persuadir, mobilizar, resolver situações complexas como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, etc) – e por outro lado submeter-se à sua própria falta de discernimento, de limites, de auto-crítica, de senso do ridículo (vulgo semancol) e viver sempre em altos e baixos… alguns altos tão altos – mas também alguns baixos tão profundos…
… que no final não sei bem o que escolher. De qualquer modo, serei honesto, visceralmente, talvez. E certamente serei politicamente incorreto, não tenho dúvidas. Hoje vivo entre as duas opções – que parecem totalmente contraditórias e inconciliáveis. Mas eu tento conciliá-las. O equilibrio é sempre o melhor caminho, até mesmo quando uma das opções é o próprio equilíbrio – portanto, não seja sempre equilibrado… hehehehhehe…. (se meu professor de lógica visse isso, estaria surtando).
O fato é que, embora meu psiquiatra recomende a continuidade do tratamento; que meus amigos me questinonem sobre a manutenção da minha medicação (e eu sempre minta, dizendo estar com a medicação “em dias”), que eu mesmo saiba que deixar de tomar a medicação é perigoso e potencialmente danoso (dano de cujo maior afetado serei eu mesmo)… embora eu saiba de tudo isso, não consigo evitar de tomar a medidação. Só pra contextualizar, voltei a tomar a medicação segunda-feira, ok?
O fato é que, inevitavelmente minhas conclusões me impedem de manter esse tratamento sempre. Não conseguiria ter terminado a monografia tomando topiramato e carbolitium. Não conseguiria ser aprovado no exame e no concurso. Não conseguiria dar conta do trabalho, na época da auditoria. Não conseguiria quebrar meus jejuns de sexo. De alguma forma, todas essas coisas são graças à mania. A mania é parte de mim, e eu sou dependente dela. Mesmo que eu tenha “reaprendido” depois da medicação me “emburrecer” (reaprendido à ler, à pensar, à me concentar, à me focar), esse processo bateu num limite. Com a medicação eu só consigo ler até um ponto. Eu só consigo pensar uma coisa de cada vez. E isso pode ser bom até certo ponto. Mas nem sempre.
O foda é que a sociedade acaba cobrando sempre mais. Você precisa produzir mais. Você precisa estudar mais. Você precisa mais…. Agora quando a gente surta e “gasta mais”, eles não estão nem aí pro fato de você ser um bipolar, uma pessoa sem auto-controle, sem capacidades pra administrar suas finanças, etc… Agora se você não puder produzir e trabalhar como um bipolar (em mania), você é demitido. Se você não conseguir cantar mulheres como um bipolar (em mania), você acaba a noite sozinho, num balcão, tomando uma bebida qualquer e se lamentando por não ter ficado em casa. Se você não consegue transar como um bipolar em mania, você provavelmente será trocado por um cara “melhor de cama do que você”, mesmo que seja um bom homem, com boas perspectivas de futuro, fiel, carinhoso e blá blá blá.
E sem contar que meus remédios reduzem as crises de mania, mas não reduzem minha depressão (contextual) e sobretudo não reduzem minhas crises de humor misto (e meu desejo latente de morte). Minha sorte é a covardia…
E meu dilema continua… E pra ser um pouco politicamente correto, eu conheço alguns bipolares que ligaram o foda-se e estão SE fodendo MESMO. E conheço uns poucos que cumprem o tratamento de modo religioso e vivem uma vidinha medíocre, mas pacata, pacífica, traquila e tá-tudo-bem…
E eu?
Eu vou “dormir”, que ainda “tenho uma hora” antes de “ter que acordar”.
5 comentários até agora
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Acho que no fundo pensamos todos a mesma coisa.
Incrivel como vc captou o que estou vivendo, mas realmente nao consigo descobrir onde esta a verdadeira felicidade? Sera que o que chamam de bipolar nao seria apenas uma forma diferente de encarar a vida?
Quase como não saber se casamos ou comprasmos uma bicicleta. Rs. Mesmo fazendo o tratamento à risca, não consigo me focar direito. Não acho que vá conseguir terminar minha dissertação da pós a tempo ou vá passar no concurso enquanto trabalho. Meus pensamento ainda continuam a mil, mas além da ‘desbipolarização’ deve ser o maldito TOC me dominando! Isso não me deixa dormir e me faz ‘esquecer’ de tomar a venlafaxina e o topamax.
Eu odeio legião urbana, mas essas coisas me lembram aquela música: o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém!
Deixar de ‘estar em mania’ parece perder um pouco do brilho, de um pedaço da identidade. Ser rotulado como incapaz, covarde ou ‘fala mas não faz’ é insuportável. Realmente de birra dá vontade de esfregar todos os certificados, cursos acadêmicos, status e baboseiras sociais na cara das pessoas.
Forma diferente de encarar a vida????? Isso é comentário de quem nunca cometeu loucuras sociais e magoou pessoas, passou noites soluçando, se debulhando em lágrimas sem conseguir respirar, noites e noites sem dormir, de quem nunca pensou que morrer seria a solução para encontrar a paz, de quem em vários momentos se achou o ser mais inteligente do universo, mais sedutor que Don Juan, mais habilidoso que Bruce Lee, mais engraçado que Woody Allen, com a vida social com mais agitada que finalista de BBB, com tiradas mais inteligentes que Dr. House…
e, depois, vontade de se enfiar num fosso abismal.
Ok. Um pouco dramática.
Estou de mau humor pelo jeito. Na verdade, fiquei puta com o comentário acima. E nem deveria ter ficado. A pessoa deve estar confusa e divagando e eu aqui de mau humor. Rs. Estou com reações desproporcionais. Sorry, pessoa. Vc pode estar passando por uma fase muito complicada. Se não procurou nenhuma ajuda profissional até então, procure. Pode até ser uma forma “diferente” de encarar a vida. Mas é uma forma que causa muitos prejuízos sociais e, por isso, deve ser tratada sim.
Sou advogada. Trabalho em banco. Presto concurso na área jurídica. Faço pós. Sou cantora. Desenho, pinto etc etc. Minhas pretensões (acho – rs) são na área jurídica e acadêmica, mas confesso que se eu fosse só cantora lírica ou pintora, desenhista etc, não iria seguir o tratamento desse jeito tao militar droga nenhuma!!!
Tenho esperança de que meu lado “obscuro/dark/sombras” e o da “mania/agitação/ideias” possam ser acessados por mim a hora que eu quiser, onde eu quiser, como eu quiser e NAO O CONTRARIO, entendem?
Por isso, medicação + terapia + atividade fisica + espiritual + intelectual = equilíbrio.
Não tem jeito…
Oi, como os bipolares são parecidos… e como nos identificamos com o q vc conta!
Eu sou bem parecida c/ vc… tem coisas q vc escreve q são identicas as q eu falo e penso!
Que barato…
Eu sempre achei q era bipolar pq minha família está cheia deles… mas há uns 06 meses q venho tentando me tratar e q tenho um laudo de q realmente sou.
Mas só nestes últimos meses q tomei os remédios (depakote 1000 grama ao dia em 03 doses e rivotril a noite). Há duas semanas eu parei porque ja estava me sentindo inchada, engordei três quilos e estava com muito sono, muita fome…… q sono era aqueleeeee..
Foi só eu parar q emagreci os 3 malditos quilos, fiz tudo q não consegui nestes 3 meses e estou sem sono….
Consigo me concentrar de novo em muitas coisas e a minha energia parece q não tem fim…..
Gosto muito de falar com quem tem tbh, pq as pessoas q não conhecem direito ou que não aceitam, só fazem com q eu perca a vontade de me tratar e a esperença de q algum dia serei normal, de que ñ sentirei sempre este buraco dentro de mim, q tento preencher voltando a fumar, bebendo uma garrafa de vinho, fazendo ginástica em excesso(e ficando travada as vezes), me arriscando pelas madrugadas, andando de bike e me sentindo livre… transando como uma louka e comendo como uma porca!!!!!! Q horror q é isso….
Mas como vc escreveu, eu tb sou dependente desta mania, ela deixa a minha vida mais colorida, ela me ajuda a fazer tudo tão rápido, tantas coisas ao mesmo tempo e um dia … estou super deprimidaaaaaa…. se eu vivesse na mania estaria bem, mas este vazio…. q não passaaaaaaa…
Se quiser falar + comigo meu msn é: robertanuzzo-sp@hotmail.com
Té + e continue escrevendo!
Eu por enquanto mantenho meus diários -livros… quem sabe faço um blog… mas eu acho q seria difícil para mim escrever sempre e mantê-lo atualizado…
Bem é isso.
Um abraço
Roberta
Oiiiiiiiiiii
Estava lendo esse seu texto e me deu a impressão que era eu que tinha escrito tudo isso! IMPRESSIONANTE! Tenho as mesmas dúvidas, qdo estou surtada, sou criativa, expansiva, alegre e VIVA, CHEIA DE VIDA! Tomando os medicamento, sou tão agua com açúcar, tão monótona, não sei se quero ser normalzinha. Tomo o medicamento ultimamente quando me convém, estou me amando bipolar mas tenho medo de exagerar em alguma coisa, surtar e assustar alguém.
Ontem surtada dispensei meu noivo….mas….como posso te dizer….eu vejo as coisas melhores, vejo a intenção por parte das pessoas, medicada sou uma boba sem vida própria.
Desculpe pelo desabafo, mas fiquei feliz em saber que essa dúvida não acontece só comigo. Muito obrigado!
Beijos.
Tatiana