O diferente é ser normal
Tenho um amigo que é juiz criminal. Há uns tempos atrás ele andou fazendo uns cursos de psicologia e psiquiatria forense, já que é natural ele ter que recorrer à psiquiatras para traçar perfis e laudos psiquiátricos de muitos réus. Ele fez o curso apenas para compreender melhor os termos técnicos utilizados na psiquiatria forense… Mas, um dia a gente estava conversando, e ele disse que havia ouvido de um psiquiatra (renomado no Estado), que não existe ninguém que conseguiria ser 100% aprovado num teste psiquiátrico. É mais ou menos o que os médicos dizem sobre a saúde: não existe ninguém 100% saudável, existem pessoas que não foram suficientemente examinadas.
O fato é que grande parte das pessoas, de algum modo, possuem alguma patologia psiquiátrica. A grande diferença é que existem níveis diferentes da patologia, sendo que aqueles que possuem níveis socialmente admitidos são considerados “normais”. Dizem até que a mudança do termo “Psicose Maníaco-Depressiva” foi modificado para “Transtorno Afetivo Bipolar” e mais recentemente para “Transtorno Bipolar do Humor”, não apenas pelo estigma que o nome anterior causava (aquela coisa do politicamente incorreto), mas também porque a difença entre os “normais” e os “doentes” não é a oscilação do humor (bipolaridade) em si mesmo, mas o “transtorno” causador (ou causado) por essa flutuação.
É comum receber novos visitantes aqui no blog que dizem não saber como vieram parar aqui, e que de alguma forma se identificam com o blog e até pensam se não são bipolares. Acho que é por isso que estou escrevendo esse post. É comum termos momentos de alegria excessiva (mania) e outros de momentânea tristeza (depressão), sobretudo se esses comportamentos (ou variações do humor) estão adequadamente ajustadas às situações contextuais da vida cotidiana. Hein? Falei difícil, né? Em outras palavras: é normal ficar super alegre e eufórico quando se passa no vestibular, se ganha um carro e começa a namorar com uma menina muito gata, tudo ao mesmo tempo; asssim como é totalmente normal ficar “pra baixo” quando se perde um familiar, um amigo se muda pra outro Estado ou se é assaltado (e nem precisa juntar tudo ao mesmo tempo).
Estranho é fingir tristeza (e não se sentir exatamente triste) quando alguém muito próximo à você falece; sentir euforia durante quinze dias seguidos, e ficar sem dormir por causa disso; se isolar do mundo, deixar de comer, de sair e de fazer coisas legais exatamente quando você é promovido, ganha um aumento, tem roupas novas no armário, é aceito num grupo legal de pessoas, recebe convites pra estar em todas…
Além dos transtornos, claro. Não ter controle com dinheiro pode ser falta de educação financeira; mas quando você não consegue definitivamente se segurar, mesmo que você seja uma pessoa metódica e controladora (e ainda por cima compra coisas totalmente inúteis só pelo prazer de “comprar”)… bem… isso sim já é um problema (que não precisa ser necessariamente transtorno bipolar do humor, mas pode ser uma compulsão por consumo). Ter medo de dormir numa casa num bairro perigoso, sozinho, é uma coisa normal (e não apenas para mulheres), mas ter medo quando se mora num condomínio super seguro, se está com cinco ou seis pessoas em casa… etc… já beira a paranóia (ou a síndrome do pânico, por exemplo).
Além disso, o blog não é exatamente sobre Transtorno Bipolar do Humor, mas sobre a vida de um bipolar que tenta andar em cima da corda bamba. Aliás, tenho vários post’s onde eu menciono que beber remédio à ponto de não ter oscilações (normais) de humor seria até desequilibrado, já que a vida é feita de altos e baixos, e que o crescimento em geral é resultado da evolução em relação à uma condição de limitação.
Ainda tem a dificuldade de diagnóstico do TBH, porque esse distúrbio químico não pode ser quantificado em exames acessíveis (existem exames que permitem elaborar uma hipótese clínica), e porque boa parte dos sintomas pode ser confundido com outros distúrbios (depressão unipolar, hiperatividade, distúrbio déficit de atenção, transtorno de personalidade limítrofe, também conhecido como borderline, dentre outros).
O fato é que rotulamos pessoas. Se um cara mata alguém de maneira cruel, é psicopata. Se é uma pessoa malcriada (acho que é junto, na nova regra ortográfica) e cheia de “vontades” totalmente loucas (ou se é uma pessoa indecisa, ou ainda tem múltiplas personalidades ou é mal caráter assumida) é bipolar. Se a pessoa se estressa, é síndrome de ansiedade. Se ela sente palpitações e o exame médico não demonstra nada anormal no coração, é pânico.
O outro fato é que todo mundo tem problemas psiquiátricos – uns em uma intensidade tão pequena (ou que culturalmente são tão aceitos socialmente) e outros de uma forma que afeta não somente a própria vida, como a vida dos outros.
Também é fato que existem pessoas que tem os transtornos psiquiátricos e adotam-no como desculpa, fuga das responsabilidades (assim como eu faço, ocasionalmente) e algumas que querem tê-los não apenas por identificação (com outras pessoas), mas por ser o hit da moda.
Bem… com isso não quero desestimular que os leitores apareçam por aqui, bipolares ou não. Quero apenas demonstrar a importância de buscar um diagnóstico equilibrado e, sobretudo, de não identificarem meus comportamentos pessoais com o Transtorno Bipolar do Humor, doença de que sou portador. Assim, espero sinceramente que as pessoas que se identifiquem comigo continuem visitando o blog, mas que não se acreditem bipolar, a menos que se enquadrem em critérios clínicos da doença e, nesse caso, busquem um especialista para diagnóstico. Aos que não chegarem a tal situação, mas que se identificarem com meus dilemas e comportamentos pessoais (com o transtorno bipolar, sem o transtorno ou apesar do transtorno) também serão sempre bem vindos aqui, assim como amigos, parentes e gente que lida com outros bipolares.
E sempre que quiserem interagir, sintam-se à vontade, inclusive pra sugerir post’s, fazer perguntas… E isso vale pra quem não gosta de deixar comentário (por medo de se expor ou por preguiça), mas que fala comigo pelo e-mail desbipolarizando@hotmail.com ou pelo MSN. Só lembrando que deixar o e-mail ao comentar é obrigatório por regras do servidor do blog, mas o e-mail fica visível apenas para mim (e portanto, você pode comentar sob um pseudônimo, e o e-mail é usado apenas se eu quiser responder o comentário via e-mail).
Aos amigos blogueiros, desculpem por não comentar ultimamente, mas tenho os lido sempre.
Bem… é isso.
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Nossa… Vc escreve muito bem. Eu adoro ler vc! Super esclarecedor. Bipolar ou Não eu estou “garrada” aqui!
Beijos!